O desafio do ensino técnico
Maria Clara Schneider, coordenadora-geral do II Fórum Mundial
de Educação Profissional e Tecnológica, vê na área potencial para fomentar e
mudar economias locais
Entre 2002 e2010, a rede
federal de ensino profissional cresceu 114% no País. O setor, em clara expansão
no Brasil, ganhou combustível com o anúncio pela presidenta Dilma Rousseff, em
outubro do ano passado, do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e
Emprego (Pronatec), que propõe o fortalecimento da rede atual e a ampliação da
oferta de vagas nos próximos quatro anos. É um incentivo positivo, analisa
Maria Clara Schneider, reitora do Instituto Federal de Educação de Santa
Catarina (IF-SC), mas que impõe seus desafios, até pelos prazos relativamente
exíguos.
Coordenadora-geral do II
Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, que reuniu em
Florianópolis, em junho, reitores, professores e especialistas de todo o mundo,
Schneider vê na área potencial para fomentar e mudar economias locais. Contudo,
diagnostica que ainda falta reconhecimento. “O mercado valoriza o bacharelado
de forma até discriminatória, e há uma conjuntura cultural de achar que a
formação acadêmica é mais importante, mais nobre. É preciso mudar essa lógica.”
Carta na Escola:Qual é o momento da educação profissional e tecnológica hoje?
Maria Clara Schneider: O principal desafio é o de trabalhar a educação profissional de
forma mais intensa e integral. Muitos institutos partiram de Centro Federal de
Educação Tecnológica (Cefets) e encaram hoje essa configuração diferente, em
que atuamos desde a formação profissional e continuada até os programas de
pós-graduação. Esse crescimento exige um modelo de gestão muito moderno,
atuante e articulado. Há ainda as questões ligadas à formação, especialmente a
dos alunos que não concluíram o Ensino Médio. Além disso, estamos
trabalhando muito com a pesquisa aplicada, especialmente num momento em que é
uma necessidade que ela deixe de ser algo de uma elite acadêmica. Outra questão
que vale a pena ressaltar é o Pronatec, um programa de abrangência espetacular.
CE:Quais as implicações do Pronatec na atuação dos institutos?
MCS: O programa envolve quase
tudo o que está ligado à educação profissional. Envolve a construção, a
expansão da rede, a contratação de educadores, e há a Bolsa Formação, que
aumenta a oferta regular das instituições para além das suas projeções. Vejo
que o programa tem um princípio de atingir pessoas que normalmente não seriam
atingidas com nossa oferta regular. Teremos mais pessoas qualificadas, que vão
movimentar mais a economia, trabalhadores que se colocam no mercado de trabalho
de outra forma. Podemos diminuir a rotatividade, o número de desempregados, de
pessoas que vivem de bico...
CE:Entre 2002 e 2010, a rede federal cresceu 114% segundo o MEC. Como
a expansão da rede impacta a contratação de docentes?
MCS:Temos um projeto de lei tramitando para aprovar a contratação de
cerca de 20 mil professores. Realmente, essa é uma das dificuldades que
enfrentamos, justamente pela forte expansão que vivenciamos nos últimos tempos,
agora é preciso dar conta dos recursos humanos. Com a aprovação da lei, espero
que a gente tenha mais tranquilidade para atuar. Eu, que estou há 22 anos numa
instituição pública de ensino, percebo que a lógica pela qual elas funcionam às
vezes provoca desafios mais intensos, como as questões de infraestrutura e de
recursos humanos que precisam ser melhoradas. Queremos ter um programa grande
de qualificação porque o professor de educação profissional tem uma forma de
atuação diferenciada, não são como os de graduação ou de Ensino Médio regular.
Ele tem de ter formação aplicada, uma vez que o aluno começa o curso com a mão
nos equipamentos, aprende fazendo, então é, sim, uma preocupação o tipo de
formação do professor.
CE:O ministro Aloizio Mercadante destacou áreas como tecnologia e
call center como as que têm tido maior demanda. Também se observa crescimento
em saúde. Esses dados se confirmam na sua experiência?
MCS:A construção civil sempre é muito buscada, as áreas da tecnologia
e da informática também. A saúde realmente está crescendo. Como éramos uma
escola técnica, temos uma história muito voltada para as áreas industrial,
mecatrônica e eletrônica. Mas acreditamos que temos que atender também turismo
e gastronomia que, por exemplo, em Florianópolis, precisam de muita
qualificação, mas muitos alunos não se sentem valorizados devidamente no
mercado de trabalho. Aí, é preciso promover um movimento que não é só
institucional, mas que também provoque os setores econômicos. É por isso que,
quando implantamos um campus, vamos até a região estudar o que ela precisa em
termos de formação e, uma vez que a necessidade foi identificada, qual o
potencial de desenvolvimento. Por exemplo, no município de Tubarão, vamos fazer
uma audiência pública para ouvir a comunidade, puxar dados de desenvolvimento
econômico da região e discutir dinâmicas para identificar novos potenciais.
Setores que, às vezes, não estão de todo estabelecidos, mas que, se formarmos
profissionais, vão se desenvolver de maneira mais intensa.
CE:Quanto tempo leva a implantação de um campus? As metas propostas
pela presidenta Dilma podem ser alcançadas?
MCS: Temos prazos bem exíguos.
A presidenta anunciou o programa em agosto do ano passado, de modo que temos de
licitar um campus até o final do ano e iniciar a construção no ano que vem.
Provavelmente, levará dois anos e meio. Tudo depende da inserção na região e do
contexto de articulação com a prefeitura.
CE:Qual costuma ser o perfil dos alunos?
MCS:Isso é muito diverso, depende do eixo tecnológico. Tem quem venha
só para se qualificar, mesmo que já tenha as competências, buscando validar
suas experiências. Pessoas de mais idade costumam procurar escolas em busca de
formação técnica que dê conta de melhorar suas condições de laboralidade e não
costumam dar continuidade aos estudos. Já os jovens continuam a formação e têm
interesse em continuar a estudar. Temos experiências positivas, por exemplo, em
Chapecó, onde nossos alunos de mecânica são potencialmente estudantes de engenharia
mecânica e têm um pouco mais de idade, em média, 35 anos.
CE:As matrículas na educação profissional cresceram 75%. Isso pode
ser visto como um sinal de mudança?
MCS:No Brasil, há muita procura pelo bacharelado porque há a crença de
que, com ele, estão garantidos um salário e uma carreira, o que não é
necessariamente verdade. É preciso mudar essa lógica, uma vez que, em alguns
casos, com a formação dada por um curso técnico, o aluno pode até conseguir uma
remuneração tão boa quanto a de um bacharel. Vemos alunos que terminam nossos
cursos e sentem a necessidade de seguir para o bacharelado por sentir que o
título é que será o diferencial. Temos então dois fatores, o mercado que
valoriza o bacharelado de forma até discriminatória e a conjuntura cultural de
achar que a formação acadêmica é mais nobre. E essa cultura é mensurável: temos
6 milhões de alunos no Ensino Superior e pouco mais de 1 milhão no técnico.
CE:Que perspectivas o Fórum deixa para a próxima edição?
MCS:A educação profissional começa a se consolidar de modo mais
espalhado pelo País, algo diferente das universidades federais, que tiveram
desenvolvimento grande, mas não se inseriram em todas as regiões. Isso ajuda as
pessoas a ficar e crescer em suas regiões. É atuando nesses contextos que a
educação tecnológica pode mudar o desenvolvimento econômico do País.
http://www.cartacapital.com.br/educacao/o-desafio-do-ensino-tecnico
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